Alexandre Barros Lopes

Publicado na data "" em "Região de Cister Júnior".

O Berço da Computação Moderna

Os vencedores do Prémio Nobel da Física de 1956, uma distinção recebida pela invenção do transístor, feita na Bell Labs.
Neste momento, é provável que já tenhas um computador no bolso, outro na mochila e talvez até outro a controlar a temperatura do congelador. Mas sabes quem é que tornou isso tudo possível?

A investigação e o desenvolvimento de sistemas de computação, tanto como modelos matemáticos quanto como mecanismos físicos, foi o alvo de grande parte do investimento por parte das multinacionais de telecomunicações na segunda parte do século XX, pelo menos em comparação a outras áreas de investigação científica. Das milhares de instituições criadas com este propósito destacou-se a Bell Telephone Laboratories Inc., conhecida coloquialmente como Bell Labs, o berço de grande parte da computação moderna e financiadora de nove descobertas vencedoras de prémios Nobel.

A Bell Labs foi fundada em 1925 pela AT&T, a multinacional de telecomunicações americana, para o desenvolvimento de novas tecnologias que pudessem vir a ser úteis para a aprimoração da sua rede telefónica. Ao longo das décadas, esta instituição reuniu um currículo excecional, incluindo o desenvolvimento da radioastronomia, do transístor, do laser, da célula fotovoltaica, da linguagem de programação “C”, que é utilizada para criar a base do software de todos os computadores que o leitor interage no dia a dia, e do sistema operativo Unix que foi utilizado pela Apple como base do MacOs e copiado por Linus Torvalds para criar um sistema operativo grátis e de uso livre chamado Linux, utilizado pelos telemóveis Android e por quase todos os servidores que compõem a internet. Nove prémios Nobel já foram dados por avanços feitos na Bell Labs, contudo, serão os últimos. Apesar de ainda existir, mas como subsidiária da Nokia, não se compara ao que foi no século passado.

Brian Kernighan

O Região de Cister Júnior contactou Brian Kernighan, professor e “Director of Undergraduate Studies” na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. Kernighan trabalhou na Bell Labs por mais de 30 anos, começando no final da década de 1960. Começou como estagiário, nos verões de 1967 e 1968, antes de ser convidado como funcionário a tempo inteiro em 1969, quando terminou o doutoramento em Engenharia Elétrica, dado que na época esta ainda incluía a Engenharia Informática. Visitou o laboratório pela primeira vez numa visita guiada em 1963, “mas não me lembro de nada sobre isso“, relata. Só retornaria anos depois, “Foi sorte pura, um amigo meu sabia que estava à procura de um estágio e contactou um dos seus amigos na Bell Labs”, conta-nos Brian Kernighan.

Mas ele não só trabalhou no sítio onde as inovações eram feitas, mas também esteve envolvido no desenvolvimento de várias delas. Recordas-te daquela linguagem de programação mencionada acima, a linguagem de programação “C”? Foi Brian Kernighan que escreveu o primeiro livro sobre essa linguagem. Chamava-se “The C Programming Language” e escreveu-o com a ajuda de Dennis Ritchie, o criador de “C”. Durante muito tempo esse livro esteve para “C” como as gramáticas estão para o português. Ou do sistema operativo UNIX? Foi ele que teve a ideia de lhe chamar “UNIX”, chegando a escrever alguns dos programas que vinham instalados com o sistema operativo. Ou alguma vez tentaste aprender uma linguagem de programação? Se sim, deves ter feito o mesmo exercício que todos os programadores, sem exceção, já fizeram em algum ponto, criar um programa que retorna “Hello, World!”. Kernighan escreveu o primeiro “programa Hello World”. Também chegou a criar duas outras linguagens de programação, “AMPL” e “AWK”, e cujo “K” vem de Kernighan.

Quando é questionado de como vê a sua carreira, como educador ou programador, explica: “Fui um programador por muito tempo, mas também escrevi alguns livros que ajudaram muitos outros a aprender, por isso, nesse aspeto, já era um ‘educador’, pelo menos ocasionalmente. Contudo, nos últimos 20 anos, tenho sido principalmente professor, e a maior parte dos
programas que tenho escrito são pequenos e voltados para o ensino, não para o uso comercial”.

Como escritor de livros técnicos, descreve os exemplos práticos como algo essencial para qualquer livro sobre programação de qualidade. “A parte difícil de escrever um livro sobre programação é encontrar uma série de bons exemplos que conduzam silenciosamente o leitor a aprender numa ordem natural, em que novos conceitos ou ideias apareçam quando o leitor estiver pronto para elas. Penso que muitos livros não têm exemplos bons, que correspondam às necessidades dos programadores, ou que sejam intrinsecamente interessantes”, conta o professor.

Mas no que toca à Bell Labs, uma das tecnologias pioneiras desenvolvidas nestes laboratórios foi os “Time Sharing Systems”, que inspiraram o desenvolvimento do sistema operativo Unix. Estes sistemas permitiam que vários utilizadores, potencialmente dispersos por vários edifícios, utilizassem o mesmo computador ao mesmo tempo sem uma perda muito grande em termos de performance. Apesar de uma distância de mais de 30 anos, Kernighan compara estas tecnologia à ‘cloud computing’, que se tornou bastante popular na última década, em que uma empresa disponibiliza os seus computadores para serem utilizados por quem estiver disponível a pagar. “Penso que como os computadores se tornaram mais pequenos e mais baratos, a começar com as workstations e depois especialmente com o IBM PC, tornou-se mais fácil e mais barato as pessoas terem os seus próprios computadores. PCs continuaram a tornar-se mais rápidos e a terem mais memória; por muito tempo a lei de Moore deu-nos um fator de melhoria de dois a cada dois anos, e isso era suficiente para a maior parte das pessoas poderem fazer o que quisessem com os seus próprios computadores; para a maioria, não havia uma necessidade muito grande para mais recursos. Apenas recentemente é que a Internet trouxe conetividade universal e a explosão da quantidade de informação armazenável fez com que instalações centralizadas passassem a ser um mecanismo razoavelmente eficaz, explica o professor, quando perguntado pelo grande intervalo
entre as duas tecnologias.

Já te deves ter apercebido do tamanho do impacto destes investigadores no nosso mundo, embora Kernighan nos relate que estes cientistas não tenham feito uma autoavaliação tão impressionante. “Penso que ninguém a trabalhar em ciência da computação tenha tido qualquer noção da influência a longo prazo que o seu trabalho teria. Talvez só fosse diferente para os físicos que estavam a inventar o transístor”, sublinha o engenheiro informático.

Mais tarde, em algum ponto nos início dos anos 90 ou final dos anos 80, a Bell Labs entrou em declínio. Alegadamente perdendo a liberdade que os seus investigadores apreciavam e necessitavam para poder explorar ideias novas sem ter de parar para considerar se isso traria um efeito positivo nas contas da sua empresa mãe, a AT&T, que passaria a ter isso como requisito para o financiamento de qualquer investigação. O declínio da Bell Labs marcou o fim de uma era na história da informática. “Se tivesse de apostar dinheiro verdadeiro, diria que um ambiente como a Bell Labs não voltaria a acontecer. A Labs tinha um ambiente muito estável com muitas coisas bastante interessantes mas altamente relevantes para trabalhar, e um modelo de financiamento que providenciava financiamento a longo prazo para que as pessoas pudessem explorar por períodos longos. Isso é difícil hoje em dia”, explica Kernighan.

O fim da Bell Labs como uma referência no mundo da tecnologia, além da tragédia da situação, serve como um alerta sobre os perigos da burocratização do setor de investigação e da exigência de lucro a curto prazo, numa área em que isto simplesmente não é possível. A invenção do transístor demorou décadas até poder ser aplicada no setor comercial, através dos computadores. A relatividade geral demorou pelo menos 70 anos até revelar as suas aplicações práticas, nos satélites artificiais, cujos relógios não funcionariam propriamente sem ter em conta efeitos relativistas. Afinal, ninguém teve de parar para consultar os acionistas antes de inventar o fogo.